
A luta e resistência pela memória
Os dias 31 de março e 1º de Abril devem ser lembrados, com pesar, da ditadura cívico-militar para que nunca mais aconteça. Recentemente, o filme Ainda Estou Aqui, por exemplo, trouxe a visão de uma família de empresários e intelectuais brancos cariocas que sofreram perseguição e morte.
Muitas histórias, dignas de reparação, ainda carecem de ser contadas e relembradas, a despeito do silêncio de boa parte do jornalismo tradicional. Houve muita perseguição à população negra e grande levante do movimento negro organizado, principalmente pelas e pelos intelectuais nas mídias alternativas. A publicação e a preservação dessas comunicações foram fundamentais para que fossem registradas, nas Comissões da Verdade, os atos de perseguição do estado.

Foto: Arquivo Nacional – Memórias Reveladas – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro – APERJ Capa do Álbum de Banidos – 1970
A violência repressiva da ditadura também afetou as periferias e favelas. Afinal, muitos territórios foram queimados e muitas mães e pais de família, mortos. O intelectual conhecido como Chavoso da USP,falou em um post sobre memórias de seus familiares e chama a atenção ao estranhamento do período da ditadura, com essa nomenclatura, em seus territórios marginalizados. Porém, se perguntassem como era a polícia na época, muitos relatariam o peso da violência e perseguição policial.
Seis décadas depois do golpe militar
O Brasil, ainda hoje, está muito longe de ser um país igualitário e equânime. Durante o Golpe de 64, aliás, intelectuais como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Solano Trindade e Beatriz do Nascimento foram monitorados e perseguidos. Em contraste com as violências que aconteciam no Brasil durante o golpe de 1964, em 1965 o Estado assinou o decreto 65.810, que promulgou na ONU a Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial, com a intenção de influenciar a reputação de que no Brasil existia uma democracia racial.
Graças aos trabalhos das Comissões da Verdade, em suma, foi desvelado o que aconteceu com alguns desaparecidos. Não há a contabilização de quantas pessoas desaparecidas eram negras, tanto no Relatório geral quanto no relatório da Comissão da Verdade de São Paulo . Esse era um dado sistêmico “apagado” dos registros, portanto a informação do impacto da ditadura sobre pretos e pardos é subrepresentada. Ainda assim, a conclusão dos relatórios da comissão da verdade assume que a maioria da população negra sofreu com as abordagens autoritárias e que foram duramente perseguidas pelas suas práticas culturais e religiosas.
Principais jornais da mídia alternativa durante a ditadura ame=”_ftnref1″>[1][2]:
- Jornal Nego – Salvador
- Jornal Quilombo -MNU
- Suplemento Afro-Latino-América no jornal Versus (SP – final dos anos 1970)
- Árvore das Palavras (1974)
- Tição (1978)
Cápsula do tempo: quais manchetes enviaríamos para os jornais de 1968?
É importante atualizarmos o fato histórico e o contexto que, passado os 61 anos após o golpe, em que momento estamos em relação à democracia e negritude. Se fôssemos descrever a realidade social atual e enviar um jornal para comunidades negras em 1964, o que falaríamos?
Estamparíamos nas manchetes de jornais que a luta do movimento negro ainda é por condições básicas de vida e de respeito. Diríamos que, apesar das cotas raciais nas universidades, muitos estudantes negros ainda não têm garantias de se sustentar na faculdade; que recentemente passamos por outra tentativa de golpe de Estado, em 8 de janeiro de 2023, com a ajuda de compartilhamento de fake-news nas mídias digitais e tradicionais.
Se fôssemos voltar a falar de comunicação pública e imprensa, estamparíamos a notícia que os Estados Unidos conseguiram facilmente a permeabilidade informacional e cultural o suficiente para criar e manter uma “mídia digital” no Brasil, como o X, que ameaça direitos e a democracia.
Teríamos que informar nessa cápsula do tempo que, infelizmente, desde o fim da ditadura militar em 15 de outubro de 1985, essa mesma população vulnerabilizada continua sofrendo com a violência numa escala crescente e que ainda está difícil o direito de ir e vir; que o sistema repressivo do Estado pelo braço da polícia segue a todo vapor e que a violência nos territórios – onde a maioria da população são pessoas negras, é absurda.
Sejam por drones bélicos ou por helicópteros com atiradores, em plena luz do dia, vidas são ceifadas pelo simples fato de serem negras e moradoras de favelas e periferias. Mas também diríamos que ainda há resistência.
Quais os registros que estamos construindo hoje?
Quando pensamos no golpe cívico-militar de 64, nos perguntamos quem teve voz e quem foi registrado como desaparecido ou não. Durante a ditadura, favelas inteiras, como a Praia do Pinto (Rio de Janeiro), foram apagadas do mapa e muitas dessas histórias ainda não foram contadas, apesar do esforço de pesquisadores e das Comissões da Verdade. A história é viva, ainda hoje novos documentos são descobertos e redes colaborativas na internet podem ser plataformas de divulgação de memórias.
Tecnologias de conhecimento aberto, como por exemplo a Wikipédia, tem uma Lista de mortos e desaparecidos políticos na ditadura militar brasileira. Outra iniciativa importante de conhecimento livre, com efeito, é a WikiFavelas, plataforma virtual de acesso aberto que se propõe como espaço de construção de memória e conhecimento produzido por pessoas moradoras de periferias e favelas. O site faz parte do Dicionário de Favelas Marielle Franco, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz). Lá é possível encontrar artigos como:
- A Folha do Borel, um jornal comunitário que enfrentou a censura e resistiu com informação direta das pessoas moradoras;
- A Luta por Justiça pela Federação de Favelas do Rio de Janeiro, que pela reparação histórica pelas perseguições sofridas, e;
- Análises sobre como a ditadura atuou nas favelas, longe dos holofotes das mídias tradicionais.
Por fim, nós do Aqualtune Lab, acreditamos que democratizar o acesso à informação, proteger dados e também construir memória é garantir o combate ao apagamento histórico, à desinformação e é a garantia de que a história de resistência da população negra, indígena e trans continue viva e acessível. Escrever, lembrar e lutar para que nunca mais aconteça!
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Referências:
[1]
OLIVEIRA, Breno Luiz da Silva. As favelas como inimigas da pátria: repressão e remoções na Ditadura Civil-Militar. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL HISTÓRIA, TEMPO PRESENTE E MEMÓRIA, 4., 2020, Florianópolis. Anais […]. Florianópolis: UDESC, 2020. Disponível em: https://eventos.udesc.br/ocs/index.php/STPII/IVSIHTP/paper/viewFile/1019/595. Acesso em: 1 abr. 2025.
[2]
PEREIRA, Aline Maia. Favelas, remoções e resistências na ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Revista Historiar, São Cristóvão, v. 12, n. 24, p. 315–340, jul./dez. 2020. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/historiar/article/view/18164/13077. Acesso em: 1 abr. 2025.é a.r
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