O movimento negro no Brasil vem sendo uma das forças mais importantes na defesa dos direitos humanos, bem como na construção de políticas públicas antirracistas. Sua atuação histórica, dos quilombos às mobilizações contemporâneas, moldou a forma como o país compreende democracia, cidadania e justiça racial.
Revisitar esse legado, decerto, é fundamental para entender os desafios atuais, especialmente quando o racismo se manifesta também por meio de tecnologias, algoritmos e sistemas de vigilância. Esse é um dos motivos pelos quais o tema é central para o trabalho do Aqualtune Lab, que atua na interseção entre Tecnologia, Raça e Direito.
Vozes que moldaram a justiça racial
Luiza Bairros
A trajetória de Luiza Bairros, por exemplo, é um marco para compreender o papel político do movimento negro. Militante do Movimento Negro Unificado (MNU) e ex-ministra da SEPPIR, Bairros articulou políticas nacionais que reconheceram o racismo como um problema estrutural e exigiram que o Estado assumisse responsabilidade por enfrentá-lo.

Sua contribuição, então, consolidou bases para ações afirmativas, participação social e mecanismos legais de combate à discriminação — temas ainda essenciais no debate sobre equidade racial.
É uma ideologia baseada na desumanização do outro, no extermínio do outro. O extermínio do outro só é possível porque há grupos que se supõem superiores. Não existe racismo de baixo para cima, pois ele sempre pressupõe a ideia de superioridade. Portanto, o Brasil é um país com um racismo bem desenvolvido. Tão desenvolvido que, durante muito tempo, sua existência pôde ser negada criando uma espécie de racismo invisível. A ponto de acusarem os que falam a palavra racismo de promotores de sua existência.
Luiza Helena de Bairros, em entrevista à Fernanda Pompeu, republicada no Geledés
Abdias Nascimento
Outro nome central é Abdias Nascimento, referência incontornável no ativismo, na cultura e na formulação política. Ao criar o Teatro Experimental do Negro e denunciar internacionalmente o racismo brasileiro, Abdias abriu espaço para que o país discutisse direitos civis de forma mais profunda.

No Congresso Nacional, dedicou sua atuação à reparação histórica e à proteção de populações negras, antecipando debates que hoje atravessam o campo digital. Afinal, ele trabalhou, indiretamente, conceitos que se relacionam com o que entendemos hoje com vigilância, criminalização e desigualdade de acesso às tecnologias.
A tentativa de vender a abolição como produto da benevolência de uma princesa branca é parte de um quadro maior, que inclui outras fantasias, como a ´colonização doce´ – suave apelido do massacre perpetrado pelos portugueses na África e nas Américas – e o ´lusotropicalismo´, expressão que encerra a contribuição lusitana à construção de uma ´civilização´ tropical supostamente aberta e tolerante. Talvez do tipo daquela por eles edificada em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, quando a humilhação e a tortura foram amplamente usadas como formas de manter a dominação física e psicológica de europeus sobre africanos.
Pronunciamento de Abdias Nascimento no Senado Federal, em 13/05/1998 – Dia da Abolição da Escravatura no Brasil
Lélia Gonzalez
A força intelectual de Lélia Gonzalez, por fim, também transformou a luta por direitos no Brasil. Seu pensamento pioneiro sobre a relação entre racismo e sexismo influenciou políticas públicas e pesquisas acadêmicas.

Lélia foi uma das primeiras a conectar comunicação, linguagem e representações sociais como bases da desigualdade. Assim, abriu caminho para discussões que hoje ampliamos para as tecnologias digitais, algoritmos e inteligência artificial: áreas que exigem atenção constante para evitar a reprodução de violências contra mulheres negras.
Da luta política aos direitos digitais: como a pauta racial chega à tecnologia
Essas lideranças mostram como o movimento negro estruturou uma agenda de direitos que combina mobilização social, produção de conhecimento e disputas institucionais. Hoje, essa agenda se expande para o universo digital.
Sistemas de reconhecimento facial, modelos automatizados de decisão e bases de dados mal reguladas têm reforçado desigualdades raciais, tornando urgente a defesa de direitos digitais e mecanismos de justiça algorítmica. Sem garantir segurança, transparência e equidade nesses sistemas, a democracia permanece incompleta.
O papel do Aqualtune Lab na defesa da equidade entre Raça, Tecnologia e Direito
É nesse contexto que o Aqualtune Lab atua. Inspirado pela resistência histórica de lideranças negras, como o símbolo que nomeia nosso instituto, o laboratório investiga como tecnologias impactam populações negras, produz dados e análises sobre violência e racismo, e propõe soluções que conectam Direito, tecnologia e justiça racial.
O movimento negro construiu as bases da luta por direitos no país. Esse legado continua sendo bússola para enfrentar desafios contemporâneos e garantir que o futuro digital brasileiro seja verdadeiramente democrático e antirracista.

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