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Desigualdade no acesso às redes: por que a exclusão digital ainda molda quem pode participar do futuro

A desigualdade no acesso às redes é, certamente, um dos maiores desafios contemporâneos para a garantia de direitos, da educação ao trabalho, da saúde aos serviços públicos. Apesar de vivermos […]

exclusão digital

A desigualdade no acesso às redes é, certamente, um dos maiores desafios contemporâneos para a garantia de direitos, da educação ao trabalho, da saúde aos serviços públicos. Apesar de vivermos a era da hiperconectividade, o avanço tecnológico não é distribuído de forma igual — seja entre países, seja dentro de um mesmo território. No Brasil e no mundo, milhões de pessoas seguem conectadas apenas “no papel”, impedidas de exercer plenamente sua cidadania digital.

Este debate ganha ainda mais relevância no contexto do primeiro encontro do Ciclo de Leituras do Grupo de Trabalho de Acesso às Redes, do Aqualtune Lab, que será conduzido por José Vitor (@zezovitor). A conversa se debruça sobre “Cabos submarinos na África: as novas fronteiras do colonialismo digital”, de Esther Mwema e Abeba Birhane, pesquisa que revela como a própria infraestrutura da internet reproduz lógicas coloniais — e como isso reverbera na exclusão digital global.

Um mundo mais conectado, mas profundamente desigual

exclusão digital facts and figures

Conforme aponta o relatório Facts and Figures 2025, da International Telecommunication Union (ITU), cerca de 6 bilhões de pessoas estão online, representando três quartos da população mundial. Ainda assim, 2,2 bilhões permanecem totalmente offline, concentradas principalmente em países de baixo e médio rendimento.

Essa exclusão não se explica apenas pela ausência de conexão: envolve custo, qualidade, velocidade, dispositivos, cobertura e, sobretudo, competências digitais.

As disparidades estruturais são profundas. São elas:

  • Países de renda alta têm 94% da população conectada; enquanto países de baixa renda, apenas 23%.
  • Enquanto 84% das populações ricas têm acesso ao 5G, apenas 4% das populações de países pobres utilizam essa tecnologia.
  • Usuários de países de renda alta consomem até oito vezes mais dados móveis do que moradores de países de renda baixa.

Ademais, a desigualdade aparece também recortada por gênero, idade e território: mulheres, pessoas idosas, populações rurais e regiões historicamente exploradas seguem mais afastadas dos benefícios da economia digital.

O Brasil reproduz essa desigualdade

Os dados da pesquisa da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) revelam que a exclusão digital brasileira não é apenas um problema de infraestrutura: é um problema de renda.

Entre pessoas que ganham até 1 salário mínimo:

  • 35% ficaram sete dias ou mais sem internet móvel nos 30 dias anteriores à pesquisa.
  • 11,6% ficaram mais de 15 dias sem conexão por falta de dados — quase seis vezes mais do que pessoas de maior renda.

Essa desconexão compromete direitos fundamentais:

  • 63,8% deixaram de acessar serviços bancários,
  • 56,5% não conseguiram acessar plataformas do governo,
  • 55,2% ficaram impossibilitadas de estudar,
  • 52,3% não acessaram serviços de saúde.

Mesmo quando existe acesso, ele é limitado. A publicidade consome dados, serviços essenciais dependem de conexão estável e muitos brasileiros têm apenas o celular para se conectar. Muitas vezes, um celular de menor capacidade, adquirido dentro do orçamento possível.

Há também uma contradição importante: quase metade das pessoas que não têm computador afirma que o custo é proibitivo, embora estudos indiquem que computadores são o dispositivo preferido para tarefas complexas e essenciais, como acessar serviços públicos e financeiros.

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Por que conectar não basta: é preciso garantir conectividade significativa

A ideia de conectividade significativa — defendida pela ITU, pela Anatel, pelo Idec e adotada pelo Aqualtune Lab — aponta que acesso não é só estar “online”.

Para ser significativo, o acesso precisa ser:

  • de qualidade (rápido, estável e contínuo),
  • acessível economicamente,
  • seguro,
  • adequado ao uso necessário (estudo, trabalho, saúde, participação política),
  • apoiado em competências digitais,
  • e garantido como direito.

Do contrário, a internet se torna mais uma fronteira da desigualdade, ampliando brechas e restringindo quem participa da vida social, econômica e política.

Colonialismo digital e acesso às redes: um debate necessário

É nesse contexto que o GT de Acesso às Redes iniciou seu Ciclo de Leituras com o texto Cabos submarinos na África: as novas fronteiras do colonialismo digital, de Esther Mwema e Abeba Birhane.

As autoras analisam como os cabos submarinos, infraestrutura essencial para a internet global, seguem rotas que repetem, no século XXI, a lógica dos caminhos do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. A pesquisa observa especialmente projetos das big techs Google e Meta, revelando como interesses econômicos e geopolíticos moldam a forma como continentes inteiros se conectam.

O paradoxo é evidente: a África é um dos territórios mais atravessados por cabos submarinos do mundo, mas continua sendo a região com maior exclusão digital global.

Isso demonstra, então, que a infraestrutura por si só não garante inclusão. Sem democratização do acesso, políticas públicas e soberania tecnológica, as redes seguem reproduzindo desigualdades históricas.

O papel do Aqualtune Lab nesse debate

Ao abrir o Ciclo de Leituras com esta obra, o GT de Acesso às Redes reafirma a urgência de discutir:

  • como a infraestrutura digital molda desigualdades,
  • quem controla os caminhos que sustentam a internet,
  • como garantir acesso pleno, justo e significativo,
  • e como combater novas formas de colonialismo — agora estruturadas em fibras ópticas, servidores e algoritmos.

Em um momento em que o Brasil e o mundo vivem transformações aceleradas pela inteligência artificial e pela expansão das redes de alta velocidade, compreender as raízes dessas desigualdades e propor alternativas é fundamental. O objetivo é claro: construir um debate informado, crítico e comprometido com um futuro em que o acesso às redes seja um direito, não um privilégio.

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