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Os fatores que promovem a exclusão digital no Brasil e suas consequências

A exclusão digital segue como um dos principais desafios sociais no Brasil, mesmo diante do crescimento acelerado do acesso à internet nos últimos anos. Dados da pesquisa TIC Domicílios 2025, […]

exclusão digital

A exclusão digital segue como um dos principais desafios sociais no Brasil, mesmo diante do crescimento acelerado do acesso à internet nos últimos anos. Dados da pesquisa TIC Domicílios 2025, realizada pelo Cetic.br e CGI.br, revelam que 86% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet, mas a desigualdade no tipo e na qualidade dessa conexão ainda limita o pleno exercício da cidadania digital.

O que é exclusão digital e por que ela importa

Exclusão digital vai além da falta de conexão à internet. O conceito, aliás, envolve barreiras econômicas, tecnológicas, educacionais e sociais que impedem pessoas e grupos de acessar, usar e se beneficiar das tecnologias digitais.

No Brasil, a digitalização de serviços públicos, educação, saúde e trabalho, por exemplo, transformou a internet em um requisito básico para a participação social. Então, sem acesso de qualidade às redes, milhões de brasileiros enfrentam obstáculos para acessar benefícios sociais, serviços do SUS, plataformas de governo digital, oportunidades de emprego e educação online.

Acesso às redes no Brasil: avanços e desigualdades persistentes

A TIC Domicílios 2025 aponta que cerca de 163 milhões de brasileiros acessam a internet em algum nível. Apesar do avanço, 28 milhões de pessoas ainda não são usuárias de internet, com maior concentração entre pessoas idosas, com baixa escolaridade, pertencentes às classes D e E e identificadas como pretas ou pardas.

Outro fator crítico é o tipo de conexão. 65% da população acessa a internet exclusivamente pelo celular, proporção que chega a 87% nas classes D e E. Esse cenário evidencia uma internet desigual, na qual o acesso existe, mas com limitações de uso, produtividade e qualidade da experiência.

Principais fatores que promovem a exclusão digital

1. Barreiras econômicas

Primeiramente, o custo de planos de internet e dispositivos é um dos maiores entraves. Com efeito, a pesquisa mostra que 39% dos usuários de celular tiveram o pacote de dados esgotado antes do fim do mês, afetando cerca de 64 milhões de brasileiros. Planos pré-pagos, mais comuns entre populações de baixa renda, ampliam a vulnerabilidade à desconexão.

2. Acesso limitado a dispositivos

A presença de computadores nos domicílios é um indicador importante de qualidade de acesso. Enquanto 97% dos lares da classe A possuem computador, apenas 10% dos domicílios das classes D e E contam com esse recurso. O uso exclusivo do celular restringe atividades como estudo, produção de conteúdo, acesso a serviços complexos e uso de ferramentas digitais avançadas.

3. Infraestrutura e qualidade da conexão

A diferença no tipo de conexão também reflete desigualdades estruturais. 95% dos domicílios da classe A contam com fibra óptica ou cabo, contra 60% nas classes D e E. Conexões instáveis e lentas reduzem a chamada conectividade significativa, conceito que considera velocidade, dispositivos, frequência de uso e franquia de dados.

4. Escolaridade e habilidades digitais

A falta de letramento digital é outro fator de exclusão. Entre os não usuários, “não saber usar a internet” é uma das principais razões para a desconexão. A desigualdade também aparece no uso de tecnologias emergentes: 69% da classe A utiliza IA generativa, contra apenas 16% nas classes D e E.

5. Fatores etários e sociais

Por fim, mais da metade dos não usuários têm 60 anos ou mais, refletindo gerações que não cresceram com tecnologia digital. Além disso, homens, pessoas pretas ou pardas e indivíduos com ensino fundamental incompleto estão entre os grupos mais afetados pela exclusão digital.

Impactos da exclusão digital para o exercício da cidadania

A exclusão digital compromete diretamente direitos fundamentais. Plataformas como Gov.br, Meu SUS Digital e serviços do INSS dependem de conexão à internet, o que cria barreiras para populações vulneráveis. Sem acesso às redes, cidadãos enfrentam dificuldades para:

  • acessar benefícios sociais e políticas públicas;
  • participar de processos democráticos e debates públicos;
  • estudar e se qualificar profissionalmente;
  • buscar oportunidades de trabalho e renda;
  • exercer direitos digitais, como privacidade e segurança.

A desigualdade de acesso também amplia disparidades econômicas e sociais, reduzindo oportunidades de mobilidade social e participação cidadã.

Caminhos para reduzir a exclusão digital no Brasil

Advogado responsável pelo GT de Acesso às redes do Aqualtune Lab, José Vitor Pereira falou ao Canal Tech sobre meios práticos para transformar esse cenário excludente. 

“Nem sempre o acesso à internet pode ser exclusivamente do ambiente residencial. É preciso também estruturar espaços públicos de ambiente de uso de internet, com bibliotecas e espaços culturais para garantir esse acesso para eventuais pessoas que não tenham esse acesso, ou para quem tem apenas o celular poder acessar grandes telas”.

Quanto a dependência de planos de dados móveis, afirmou que:

“A gente tem uma assimetria de modo que planos mais caros acabam tendo o valor por GB de internet menor do que planos mais baixos.”

Por fim, destacou a importância não só de oferecer internet de qualidade, mas de capacitar os brasileiros a usarem-na:

“Incentivar um letramento digital básico para você fazer todos os serviços que a internet disponibiliza: ampliar usos éticos e educativos com IA, fazer transferências econômicas e se comunicar”, completa.

Ou seja, para Pereira, são exemplos de estratégias prioritárias:

  • redução do custo de planos de internet;
  • ampliação do acesso a computadores e dispositivos;
  • criação de espaços públicos com internet de qualidade;
  • programas de letramento digital;
  • políticas de inclusão digital voltadas a populações vulneráveis.
Leia mais: Desigualdade no acesso às redes: por que a exclusão digital ainda molda quem pode participar do futuro

Exclusão digital na América Latina: desigualdades regionais e o papel do Brasil

A exclusão digital no Brasil está inserida em um contexto mais amplo de desigualdade tecnológica na América Latina, onde a falta de infraestrutura, os altos custos de conexão e a ausência de políticas educacionais inclusivas limitam o acesso às tecnologias digitais, especialmente em áreas rurais e populações vulneráveis.

Dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento indicam que 77 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe vivem sem conectividade mínima de qualidade, com uma diferença de até 34 pontos percentuais entre áreas urbanas e rurais.

Leia mais: A ameaça dos vazamentos de dados aos direitos individuais

Nesse cenário, de acordo com o trabalho “Desigualdade Digital – Como uma transformação digital inclusiva pode contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Social (ODS)”, iniciativas brasileiras como a Estratégia Brasileira para Transformação Digital (E-Digital) e programas de inclusão digital representam avanços, mas a persistência dessas lacunas regionais evidencia que a expansão do acesso às redes é central para reduzir desigualdades, fortalecer a cidadania digital e promover o desenvolvimento social no Sul Global.

O Brasil avançou significativamente no acesso às redes, mas a exclusão digital continua como uma barreira estrutural para o exercício pleno da cidadania. Garantir conectividade significativa, com qualidade, dispositivos adequados e habilidades digitais, é um passo fundamental para reduzir desigualdades, fortalecer a democracia e ampliar oportunidades na sociedade digital.

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