A transformação digital do Sistema Único de Saúde (SUS) já está em curso no Brasil. Iniciativas como o Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI), o primeiro hospital inteligente do SUS, anunciam uma nova era para a saúde pública, marcada por interoperabilidade de dados, inteligência artificial, automação hospitalar e monitoramento em tempo real. Esse avanço tecnológico, então, tem potencial para ampliar a eficiência, reduzir tempos de espera e melhorar desfechos clínicos.
No entanto, a digitalização do sistema de saúde não é neutra. Sem uma política nacional de informação em saúde e saúde digital formalmente consolidada, esses sistemas podem reproduzir, ou até aprofundar, desigualdades históricas, especialmente aquelas que afetam a população negra.
O que são hospitais inteligentes e como funcionam
Hospitais inteligentes são instituições de saúde que operam com integração total de sistemas digitais. Assim, utilizam prontuários eletrônicos interoperáveis, inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT), automação logística e gestão baseada em dados.
O projeto do ITMI, por exemplo, prevê monitoramento em tempo real de pacientes, UTIs inteligentes conectadas nacionalmente, telemedicina integrada, sistemas preditivos para apoio clínico e centros de comando hospitalar para gestão de fluxos e recursos.
Essas tecnologias, dessa forma, prometem reduzir tempos de espera, diminuir custos operacionais e melhorar a segurança do paciente. O Ministério da Saúde estima, por exemplo, redução significativa no tempo de permanência em UTIs e na duração de internações hospitalares, além de maior eficiência no uso de recursos críticos.
Impactos raciais da transformação digital da saúde
A população negra no Brasil enfrenta desigualdades estruturais em saúde, como maior mortalidade materna, maior prevalência de doenças crônicas e menor acesso a serviços especializados. Decerto, esses fatores estão ligados a determinantes sociais, racismo institucional e desigualdades territoriais.
Hospitais inteligentes e interoperabilidade podem contribuir para reduzir essas desigualdades ao garantir continuidade do cuidado, bem como ampliar acesso a especialistas via telemedicina e melhorar a tomada de decisão clínica. Contudo, também podem reproduzir vieses raciais já existentes nos dados e nas práticas institucionais.
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Sistemas de inteligência artificial dependem de bases de dados históricas, que refletem padrões de discriminação, subdiagnóstico e subtratamento de pessoas negras.

O risco é evidente: dados produzidos em contextos de racismo institucional tendem a reproduzir padrões de subdiagnóstico, subtratamento e menor priorização de pacientes negros. Sem mecanismos de transparência algorítmica, auditoria contínua e correção de vieses, a tecnologia pode automatizar injustiças em vez de corrigi-las.
Sem diretrizes normativas claras, esses sistemas podem reforçar desigualdades ao subestimar riscos clínicos, priorizar recursos para populações privilegiadas ou invisibilizar necessidades específicas de grupos racializados.
O vácuo normativo e a urgência de uma Política Nacional de Informação em Saúde
O Brasil já possui uma política de saúde digital em execução, estruturada por iniciativas como:
- Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020–2028;
- DATASUS;
- Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS);
- Programa SUS Digital;
- Política Nacional de Informação e Informática em Saúde (PNIIS);
- Estratégia Nacional para o Complexo Econômico-Industrial da Saúde.
Apesar desse arcabouço, essas iniciativas estão organizadas de forma fragmentada e ainda carecem de uma norma geral federal que consolide juridicamente a Política Nacional de Informação em Saúde e Saúde Digital (PNISD).
Uma norma federal permitiria definir objetivos, princípios ético-valorativos e diretrizes coordenadas para a transformação digital do SUS, orientando estados, municípios e atores privados na incorporação de tecnologias digitais com respeito aos direitos fundamentais.
Equidade racial como princípio estruturante da saúde digital
Entre os princípios que devem orientar uma política nacional de saúde digital, a equidade ocupa lugar central. Equidade significa reconhecer que diferentes grupos sociais partem de condições desiguais e que políticas públicas precisam considerar determinantes sociais, raciais e territoriais da saúde.
Para a população negra, isso implica desenvolver sistemas interoperáveis capazes de identificar desigualdades, produzir dados desagregados por raça/cor, orientar políticas públicas baseadas em evidência e garantir participação social na governança das tecnologias.
Além da equidade, princípios como acessibilidade, transparência, segurança da informação, compartilhamento de benefícios, eficiência e respeito aos direitos fundamentais são essenciais para evitar que a digitalização do sistema de saúde se transforme em mais uma camada de exclusão.

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