Aqualtune Lab

O acesso gratuito à literatura como ferramenta antirracista com MEC Livros

Em um país marcado por profundas desigualdades no acesso à educação e à cultura, uma plataforma gratuita do governo federal vem democratizando o contato com a literatura: o MEC Livros. […]

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Em um país marcado por profundas desigualdades no acesso à educação e à cultura, uma plataforma gratuita do governo federal vem democratizando o contato com a literatura: o MEC Livros. Lançada no início de abril pelo Ministério da Educação, a plataforma teve uma adesão impressionante logo de cara: em poucos dias, já somava mais de 122 mil empréstimos gratuitos de obras literárias e ultrapassava 291 mil usuários cadastrados.

Com um acervo de cerca de 8 mil títulos, entre clássicos, best-sellers e obras contemporâneas, a plataforma os disponibiliza para leitura por até 14 dias, com possibilidade de renovação. 

No Aqualtune Lab, acreditamos que o acesso ao conhecimento é parte fundamental da luta antirracista. Literatura não é entretenimento neutro: ela forma imaginários, constrói identidades e pode tanto apagar quanto celebrar existências. Por isso, pensamos numa curadoria intencional dentro do acervo do MEC Livros. Três obras, três gêneros diferentes, um fio condutor: raça, resistência e memória.

Por que fazer curadoria dentro do MEC Livros?

A plataforma MEC Livros reúne milhares de títulos, o que pode tornar a navegação desafiadora para quem não sabe por onde começar. Por isso, nossa seleção foi pensada com um critério claro: diversidade de gêneros literários, sem abrir mão da centralidade da temática racial.

Escolhemos uma biografia, uma ficção brasileira clássica e um cordel. Esse formato genuinamente brasileiro, que há séculos funciona como instrumento de narrativa popular, resistência cultural e preservação da memória dos povos.

Os três livros da nossa curadoria

1. A Clínica Rebelde — uma biografia de Frantz Fanon, de Adam Shatz

Frantz Fanon é um dos pensadores mais importantes e radicais do século XX. Nascido na Martinica, psiquiatra de formação e militante anticolonial por convicção, Fanon dedicou a vida a compreender de que forma o colonialismo afeta não apenas as estruturas sociais e econômicas, mas também a psique dos povos colonizados.

Em A Clínica Rebelde, o jornalista e crítico literário Adam Shatz constrói uma biografia densa e apaixonada. Assim, mergulha na trajetória intelectual e pessoal de Fanon, de sua infância nas Antilhas à atuação na Argélia em plena Guerra de Independência. A obra é uma porta de entrada para quem quer entender o pensamento fanoniano e sua relevância para os debates contemporâneos sobre raça, saúde mental e descolonização.

2. O Mulato, de Aluísio Azevedo

Publicado em 1881, O Mulato é um romance pioneiro na literatura brasileira. Aluísio Azevedo, um dos principais nomes do naturalismo no país, narra a história de Raimundo, filho de um fazendeiro branco com uma mulher escravizada, que retorna ao Maranhão sem conhecer suas origens.

A obra expõe, com uma coragem rara para sua época, o racismo estrutural e a hipocrisia de uma sociedade que discriminava abertamente quem escapava aos seus padrões de cor e origem. Mais de 140 anos depois de sua publicação, muitas das dinâmicas descritas por Azevedo seguem reconhecíveis no cotidiano brasileiro — o que torna a leitura ao mesmo tempo incômoda e necessária.

O Mulato é leitura obrigatória para quem quer compreender as raízes históricas do racismo brasileiro e de que forma ele foi naturalizado ao longo dos séculos.

3. Heroínas Negras Brasileiras, de Jarid Arraes

Jarid Arraes é uma das vozes mais potentes da literatura de cordel contemporânea no Brasil. Em Heroínas Negras Brasileiras, ela apresenta, em versos e ilustrações, mulheres negras que fizeram história no país e que foram sistematicamente apagadas dos livros didáticos e da memória oficial.

De Dandara a Chica da Silva, cada página é um esforço de reparação histórica. O cordel, como forma literária, carrega em si uma tradição de oralidade e de circulação popular. Dessa forma, dialoga diretamente com as comunidades que mais precisam ver suas histórias contadas. Não à toa, é um dos gêneros mais democráticos e acessíveis da literatura brasileira.

Indicamos a obra de Jarid para leitoras e leitores de todas as idades. Especialmente, contudo, para educadoras e educadores que querem levar representatividade para dentro da sala de aula.

Como acessar o MEC Livros

O acesso é gratuito e o login é feito pela conta Gov.br.

Após escolher um título disponível, basta clicar em “Emprestar e Ler” para iniciar a leitura. Caso o livro esteja indisponível, é possível entrar em uma fila de espera. Ao final do período de empréstimo de 14 dias, o leitor pode renovar o prazo ou devolver a obra.

A leitura pode ser feita diretamente no navegador ou pelo aplicativo, disponível para celulares e tablets.

A plataforma também conta com recursos de acessibilidade, como suporte para dislexia, ajuste de fontes e contrastes, e compatibilidade com leitores de tela para pessoas com deficiência visual. 

Literatura como parte da luta

Ler sobre raça, resistência e história negra não é um ato isolado. É parte de um processo contínuo de formação, consciência e transformação — individual e coletiva. Cada livro que amplia nosso olhar sobre as desigualdades que nos cercam é também uma ferramenta para enfrentá-las.

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