Desinformação: quando uma mulher negra e idosa aparece nas redes sociais xingando o presidente da República, usando palavrões, expressando “indignação popular” e acumulando mais de 110 milhões de visualizações em menos de um ano, algo precisa de uma investigação minuciosa. Não apenas o conteúdo que ela veicula, mas, antes de tudo, quem ela é e por que tem tal aparência.
“Dona Maria” não existe. Ela é um avatar gerado por inteligência artificial, criado com a ferramenta Gemini, do Google, por Daniel Cristiano dos Santos, motorista de aplicativo de 37 anos, morador de Magé, na Baixada Fluminense. Com alinhamento ideológico declarado ao bolsonarismo, Daniel modelou uma personagem que rapidamente se tornou o fenômeno político-digital mais expressivo de 2025 e 2026 no Brasil: uma senhora negra, periférica e furiosa, apresentada às redes como “a voz do povo brasileiro de bem”.
O caso da Dona Maria, contudo, não é apenas um episódio de desinformação. É também uma aula sobre como o racismo estrutural pode ser instrumentalizado como tecnologia de manipulação política. E com a IA como ferramenta de amplificação.
Por que a Dona Maria é negra?
Entre julho de 2025 e abril de 2026, pelo menos 12 vídeos do perfil da Dona Maria atingiram mais de 1 milhão de visualizações cada. O vídeo mais impactante, publicado em julho de 2025, acumulou 8,8 milhões de visualizações e mais de 23 mil comentários. No total, os vídeos da personagem chegaram a 110 milhões de visualizações e 11,5 milhões de interações, segundo levantamento do DataFórum.
Decerto, a escolha racial não é estética nem aleatória. Ela é estratégica e carrega camadas históricas de exploração simbólica que precisam ser nomeadas.
1. O escudo da autenticidade popular
No Brasil, a figura da mulher negra e idosa carrega um peso afetivo e moral muito específico. É uma imagem associada à sabedoria prática, bem como ao sofrimento legítimo, à experiência acumulada na dureza da vida.
Ao criar um avatar com essas características para veicular conteúdo político agressivo, o responsável pelo perfil lançou mão de um capital simbólico que não lhe pertencia: a autoridade moral da mulher negra periférica, construída historicamente sobre décadas de resistência e invisibilização.
2. O paradoxo da representatividade como arma
Há uma ironia dolorosa no caso da Dona Maria: usa-se a imagem de uma mulher negra para atacar um governo que, ao menos retoricamente, se posiciona em defesa de políticas de equidade racial. O avatar simula representatividade onde há manipulação. Finge dar voz a quem historicamente não tem. Na prática, contudo, retira dessa mesma comunidade o direito à sua própria imagem e discurso.
3. A periferia como cenário de credibilidade
Por fim, constrói-se a personagem com marcadores visuais e linguísticos de classe popular. O vocabulário agressivo, a aparência envelhecida, o contexto doméstico simples. Tudo isso compõe, assim, o que pesquisadores jurídicos têm chamado de “simulacro de presença social” — a IA fabricando aparência de humanidade, de idade, de classe, de raça, de linguagem e de indignação popular. É a pobreza como fantasia de legitimidade.
Outros personagens, o mesmo padrão de desinformação
A Dona Maria não está sozinha. Um levantamento conduzido em maio de 2026 identificou pelo menos 18 perfis de avatares de IA comentando política nas redes sociais brasileiras. Em 78% deles, os conteúdos veiculavam desinformação política com alegações enganosas sobre políticos e instituições democráticas.
“Seu Zé da Feira” é outro exemplo emblemático. Representado como um homem negro e idoso em ambiente de feira popular, o avatar publica vídeos com críticas a políticos de direita em defesa do governo federal. Ao contrário da Dona Maria, os vídeos do “Seu Zé” costumam exibir a marca d’água da ferramenta de geração de imagens Veo 3 e recebem sinalização das plataformas indicando que o conteúdo é sintético — o que, de certa forma, os distingue no quesito transparência. Mas não elimina o problema da instrumentalização racial.
O padrão que emerge é claro: personagens que tem a raça como aspecto central, especialmente negros e de aparência popular, para conferir peso emocional e aparência de autenticidade ao discurso político. Convoca-se a negritude como acessório da credibilidade: não como sujeito, mas como cenário.
No YouTube, canais como “Os Bastidores do Poder” e “Pátria Racional” adotam uma lógica ligeiramente diferente: avatares que simulam especialistas — analistas políticos, juristas, comentaristas — para conferir autoridade intelectual à desinformação, acionando a chamada falácia da autoridade.
Quando o avatar é branco e apresentado como especialista, o recurso é a autoridade epistêmica; quando é negro e periférico, o recurso é a autoridade moral e afetiva. Dois mecanismos distintos, uma mesma arquitetura de manipulação.
As respostas institucionais: o que plataformas e reguladores têm feito
Diante desse cenário, tanto as plataformas digitais quanto a Justiça Eleitoral brasileira têm ensaiado respostas. Ainda que insuficientes, elas representam um movimento importante.
TSE e as novas regras para 2026
Em março de 2026, o TSE aprovou um conjunto robusto de resoluções que colocam a inteligência artificial no centro da regulação eleitoral. Entre as principais medidas:
- Rotulagem obrigatória: qualquer conteúdo de propaganda eleitoral com IA deve informar de maneira explícita e visível que o material foi produzido artificialmente. Conteúdos sintéticos sem rotulagem devem ser removidos imediatamente pelas plataformas, sem necessidade de ordem judicial.
- Proibição de deepfakes: é vedado o uso de áudio ou vídeo manipulado digitalmente para criar, substituir ou alterar a imagem ou a voz de qualquer pessoa, com o objetivo de prejudicar ou favorecer candidaturas.
- Janela de restrição: conteúdos sintéticos novos ficam proibidos nas 72 horas que antecedem o pleito e nas 24 horas posteriores à votação.
- Banimento de perfis apócrifos: plataformas são obrigadas a promover o banimento de perfis falsos, anônimos ou automatizados que desinformem reiteradamente.
- Responsabilidade solidária das plataformas: as big techs têm obrigação de remover rapidamente conteúdos que violem as regras, sob pena de sanções. Em casos de descumprimento, admite-se responsabilização solidária.
- Inversão do ônus da prova: em casos de suposta manipulação digital, o responsável pelo conteúdo pode ser obrigado a demonstrar tecnicamente que o material não foi adulterado.
- Proibição de IAs recomendando candidatos: ferramentas como ChatGPT e Gemini estão proibidas de simular conversas com candidatos, recomendar candidaturas ou ranqueá-las.
Os limites do que existe
As medidas são um avanço, mas há tensões estruturais que não se resolvem por decreto. O crescimento de 308% em conteúdos falsos gerados por IA entre 2024 e 2025, segundo o Observatório Lupa, evidencia a escala do desafio.
As regras do TSE focam no ambiente eleitoral formal, mas o dano informacional começa muito antes do período oficial de campanha. E o WhatsApp, onde a identificação de autores é mais difícil, segue como zona de sombra regulatória.
Conclusão: nomear é o primeiro passo
O Aqualtune Lab existe para pensar a interseção entre tecnologia, raça e poder. O caso da Dona Maria é um espelho incômodo: mostra que as escolhas estéticas de criadores de conteúdo são também escolhas políticas, e que é possível explorar a negritude como recurso retórico até mesmo por quem historicamente a nega.
Nomear esse mecanismo — a instrumentalização racial como estratégia de desinformação — é o primeiro passo para combatê-lo.
O segundo é exigir que plataformas, reguladores e desenvolvedores de IA assumam sua parcela de responsabilidade: não apenas na remoção de conteúdos ilegais, mas na construção de sistemas que não permitam que a imagem de mulheres negras seja apropriada, fabricada e utilizada sem qualquer consequência.
A luta pela democracia informacional é também, e inevitavelmente, uma luta antirracista.

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