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Por que famílias brasileiras estão repensando o uso de celulares e brinquedos inteligentes

Durante muitos anos, o debate sobre crianças e tecnologia esteve centrado no tempo de tela. Agora, uma nova preocupação ganha espaço: a proteção de dados pessoais, chegando até aos brinquedos […]

brinquedos inteligentes

Durante muitos anos, o debate sobre crianças e tecnologia esteve centrado no tempo de tela. Agora, uma nova preocupação ganha espaço: a proteção de dados pessoais, chegando até aos brinquedos inteligentes.

Essa mudança aparece de forma clara em duas frentes. De um lado, dados recentes do IBGE mostram que a segurança e a privacidade passaram a ser o principal motivo para que pais e responsáveis adiem a entrega do primeiro celular aos filhos. De outro, a investigação do governo federal sobre brinquedos equipados com inteligência artificial reacende o alerta para os riscos da coleta de dados de crianças por dispositivos conectados.

Embora tratem de objetos diferentes, celulares e brinquedos, os dois casos revelam uma transformação mais profunda. Decerto, as famílias brasileiras estão cada vez mais atentas aos impactos da tecnologia sobre os direitos de crianças e adolescentes.

Pela primeira vez, caiu o acesso de crianças ao celular

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, registrou um dado inédito: pela primeira vez desde o início da série histórica, diminuiu a proporção de crianças de 10 a 13 anos que possuem telefone celular.

Em 2025, por exemplo, 55,2% das crianças dessa faixa etária tinham aparelho próprio, uma redução em relação ao ano anterior. Mais significativo do que a queda é o motivo apontado pelas famílias.

Hoje, a principal justificativa para não oferecer um celular às crianças é a preocupação com segurança e privacidade, superando fatores como custo do aparelho ou falta de necessidade. Segundo o próprio IBGE, essa preocupação cresceu de forma consistente nos últimos anos e reflete um cenário de maior atenção à exposição infantil em ambientes digitais.

Outro dado reforça essa tendência: também houve uma pequena redução no acesso à internet entre crianças de 10 a 13 anos, indicando que parte das famílias está revendo a forma como os filhos entram em contato com tecnologias digitais.

Brinquedos com IA ampliam o debate sobre proteção de dados

Enquanto algumas famílias optam por adiar o acesso ao celular, outro desafio surge dentro de casa.

O governo brasileiro investiga brinquedos equipados com inteligência artificial por suspeitas de coletarem dados pessoais de crianças além do necessário, incluindo voz, imagens e outras informações capazes de construir perfis de comportamento.

A preocupação vai além da existência da IA nos brinquedos. O ponto central é como esses dados são coletados, armazenados, utilizados e compartilhados.

Quando dispositivos destinados ao público infantil passam a registrar interações, reconhecer comandos de voz ou aprender padrões de comportamento, a proteção da privacidade deixa de ser apenas uma questão técnica e passa a ser um tema de direitos fundamentais.

O desafio não é impedir a inovação

O crescimento da inteligência artificial em produtos para crianças não significa que rejeitar essas tecnologias seja a solução.

O desafio é garantir que inovação e proteção caminhem juntas.

Isso envolve princípios como:

  • transparência sobre coleta de dados;
  • minimização da coleta de informações pessoais;
  • consentimento informado dos responsáveis;
  • mecanismos robustos de segurança;
  • desenvolvimento de tecnologias que priorizem os direitos da criança desde sua concepção.

Esses princípios ganham ainda mais relevância diante da expansão de dispositivos inteligentes para ambientes domésticos, escolares e de lazer.

O que esse cenário revela sobre o futuro da infância digital?

Os dados do IBGE e a investigação sobre brinquedos inteligentes apontam para uma mudança importante na relação entre famílias e tecnologia.

A pergunta já não é apenas quando uma criança deve ganhar o primeiro celular.

Também é preciso perguntar:

  • quais tecnologias estão presentes na rotina infantil;
  • que informações elas coletam;
  • quem controla esses dados;
  • quais direitos são garantidos às crianças em ambientes digitais.

A proteção da infância na era da inteligência artificial exige mais do que escolhas individuais das famílias. Ela depende de políticas públicas, marcos regulatórios e mecanismos de fiscalização capazes de assegurar que tecnologias digitais sejam desenvolvidas com responsabilidade. No Aqualtune Lab, entendemos que esse compromisso deve incluir uma perspectiva de justiça racial e direitos humanos, reconhecendo que os impactos da IA não são distribuídos de forma igual na sociedade.

Promover uma governança democrática da inteligência artificial significa garantir que crianças — especialmente aquelas historicamente mais vulnerabilizadas — tenham seus direitos, sua privacidade e sua dignidade protegidos em qualquer ambiente, físico ou digital. 

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