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Inteligência artificial e apostas esportivas: tecnologia a serviço de quem?

A Copa sempre foi um evento capaz de mobilizar paixões e, cada vez mais, dinheiro. Em 2026, porém, uma novidade entrou em campo junto com os torcedores: a inteligência artificial […]

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A Copa sempre foi um evento capaz de mobilizar paixões e, cada vez mais, dinheiro. Em 2026, porém, uma novidade entrou em campo junto com os torcedores: a inteligência artificial como ferramenta para apostas. A promessa é sedutora. Se os algoritmos conseguem analisar milhões de dados em segundos, prever tendências de mercado e identificar padrões invisíveis ao olho humano, por que não usá-los para vencer as bets? A resposta, quando se olha para os dados, é mais incômoda do que o mercado gostaria de admitir.

A IA foi testada. E perdeu

Um experimento recente colocou oito dos modelos de inteligência artificial mais avançados do mundo à prova em previsões esportivas reais. Alimentaram GPT-4, Claude, Gemini, Llama, Mistral, Mixtral, Grok e Command R com dados históricos, desempenho recente das equipes e odds das casas de apostas. O objetivo era identificar onde o mercado estaria “errando”, e lucrar com essa ineficiência.

Nenhum deles conseguiu gerar lucro consistente. Em vários cenários, o desempenho ficou próximo de apostas aleatórias, ou abaixo disso.

O resultado não é surpreendente para quem conhece a Hipótese de Mercado Eficiente, formulada pelo economista Eugene Fama, ganhador do Nobel. Mercados competitivos tendem a incorporar rapidamente todas as informações disponíveis nos preços.

O mercado de apostas esportivas não é diferente: as odds já refletem dados estatísticos, comportamento dos apostadores e ajustes contínuos feitos pelas plataformas. A IA não encontrou ineficiências porque elas praticamente não existem para o apostador comum.

O que existe, em contrapartida, é uma narrativa poderosa de que a tecnologia pode transformar palpite em cálculo. Essa narrativa circula em canais do YouTube, grupos de WhatsApp e perfis de influenciadores especializados em “estratégias de bets”. Ela não é inocente: alimenta um mercado que lucra, sobretudo, com a perda de quem aposta.

O dinheiro que a Copa movimenta

Desde o início da Copa do Mundo 2026, os brasileiros já enviaram R$ 507,3 milhões para casas de apostas esportivas regularizadas. Os dados são de um levantamento da Klavi, empresa especializada em Open Finance, que monitora diariamente uma amostra anonimizada de 1,2 milhão de pessoas.

Os números revelam mais do que volume: revelam comportamento. No dia 25 de junho, 9,1% da amostra realizou ao menos uma transferência para plataformas de apostas — percentual 9% acima da média registrada antes da Copa. O valor médio enviado por apostador naquele dia foi de R$ 235, cifra 24% superior à média pré-torneio. Ou seja: não apenas mais pessoas apostaram, como cada uma apostou mais.

Os picos de apostas coincidem com os dias de jogos da seleção brasileira, o que indica uma relação direta entre a emoção do futebol e a movimentação financeira nas plataformas. 

Esse cenário se torna ainda mais revelador quando cruzado com dados estruturais. Segundo o Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa da Anbima em parceria com o Datafolha, 17% da população brasileira afirmou ter apostado online em 2025, ante 14% três anos antes. Entre os apostadores, 39% recorrem às bets pela possibilidade de ganhar dinheiro rapidamente em momentos de necessidade. Ao mesmo tempo, 31% dos brasileiros não possuem qualquer reserva financeira para emergências.

O mercado de apostas esportivas no Brasil não está crescendo apesar da vulnerabilidade econômica da população. Ele está crescendo por causa dela.

Um mercado projetado para a dependência

O transtorno do jogo — conhecido internacionalmente como gambling disorder — é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um transtorno mental e comportamental. Sua característica central é a perda de controle sobre o comportamento de apostar, mesmo quando isso provoca prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais.

Por trás desse mecanismo, há um processo neurológico bem estudado: o reforço intermitente.

Diferentemente de uma recompensa previsível, as apostas oferecem ganhos ocasionais e imprevisíveis. Essa incerteza estimula repetidamente o sistema de recompensa do cérebro, favorecendo a liberação de dopamina e aumentando o desejo de continuar apostando, inclusive após perdas consecutivas. A American Psychological Association aponta que esse funcionamento cerebral apresenta semelhanças com outros tipos de dependência.

Esse risco não é distribuído de forma homogênea

Uma revisão científica publicada pelo National Council on Problem Gambling, que analisou mais de 140 estudos sobre apostas esportivas, concluiu que apostadores em esportes apresentam risco significativamente maior de desenvolver problemas relacionados ao jogo do que outros perfis de jogadores — e que esse risco é ainda mais elevado quando as apostas ocorrem pela internet, pela disponibilidade constante e pela rapidez com que novas apostas podem ser feitas. Outra revisão sistemática, publicada no Journal of Behavioral Addictions, identificou que jovens adultos figuram entre os grupos mais vulneráveis.

Durante grandes eventos esportivos como a Copa do Mundo, esses fatores se intensificam. A oferta de anúncios aumenta, surgem promoções em tempo real, apostas ao vivo se multiplicam e a emoção coletiva do futebol funciona como amplificador do impulso. Não se trata de um efeito colateral indesejado do mercado. Trata-se do seu modelo de negócio.

A inteligência artificial, nesse contexto, cumpre um papel duplo e contraditório. Por um lado, é vendida ao apostador como ferramenta de vantagem — um escudo contra a irracionalidade. Por outro, as próprias plataformas utilizam algoritmos para personalizar ofertas, identificar padrões de comportamento compulsivo e otimizar a retenção de usuários. A IA que promete proteger o apostador é prima-irmã da IA que o mantém apostando.

A regulação que ainda está sendo negociada

O debate regulatório sobre apostas esportivas no Brasil avança em câmera lenta enquanto o dinheiro corre em tempo real.

Um projeto de lei que proíbe a propaganda e o patrocínio de empresas de apostas, incluindo anúncios em TV, rádio, internet, redes sociais e eventos esportivos, já foi aprovado na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado. Mas ainda precisa percorrer a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e os plenários da Câmara e do Senado antes de qualquer efeito prático.

Enquanto o texto tramita, os fatos se acumulam.

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) abriu uma investigação preliminar sobre ações publicitárias veiculadas durante a Copa do Mundo 2026, apurando se respeitaram as normas de proteção ao consumidor e os princípios do jogo responsável.

Entre os pontos analisados estão a associação entre paixão pelo futebol e apostas, a divulgação de ofertas promocionais e a participação de narradores e comentaristas incentivando palpites em tempo real. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), por sua vez, recomendou a suspensão das ativações em que narradores destacavam odds durante as transmissões.

O movimento regulatório é relevante, mas insuficiente para revelar a dimensão do problema. Restringir publicidade é necessário. Mas não enfrenta a arquitetura das próprias plataformas, projetadas para maximizar engajamento e minimizar abandono. Tampouco questiona o uso de dados comportamentais para identificar e reter usuários em situação de vulnerabilidade.

Tecnologia a serviço de quem?

A pergunta que organiza este artigo não é retórica. Ela aponta para uma disputa concreta sobre como a inteligência artificial é desenvolvida, por quem, com quais objetivos e com quais consequências para populações historicamente mais expostas à exploração econômica.

No caso das apostas esportivas, a resposta provisória é clara: a tecnologia está, em larga medida, a serviço das plataformas.

Ela promete ao apostador uma vantagem que não existe, como demonstrou o teste, enquanto sofistica, por dentro, os mecanismos de captura e retenção de usuários.

Discutir inteligência artificial e apostas esportivas é, portanto, discutir desigualdade.

É perguntar por que 39% dos apostadores brasileiros recorrem às bets porque precisam de dinheiro. É questionar por que a regulação que poderia proteger pessoas ainda está sendo negociada enquanto R$ 507 milhões já saíram dos bolsos de quem aposta nesta Copa.

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